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Evidência da circulação de clones de Neisseria gonorrhoeae resistentes a azitromicina no Rio de Janeiro

A capacidade que Neisseria gonorrhoeae tem em adquirir resistência a antimicrobianos utilizados no tratamento da gonorreia faz com que este microrganismo seja alvo de atenção em diversas entidades de saúde pública no mundo. Devido a altas taxas de resistência relatadas em estudos nacionais com este microrganismo para penicilina, tetraciclina e ciprofloxacina (todas em geral acima de 50%), desde setembro de 2017 o Ministério da Saúde passou a recomendar a terapia combinada com ceftriaxona (500 mg, intramuscular) e azitromicina (1 g, via oral) em dose única para o tratamento de gonorreia no Brasil. No caso de pacientes alérgicos a penicilina a recomendação é monoterapia com azitromicina (2 g, via oral, também em dose única).

Desde então, nenhum dado publicado indica que tenha sido isolada no Brasil alguma amostra resistente a ceftriaxona, apesar de amostras com suscetibilidade reduzida a cefixime terem sido descritas. A ocorrência de isolados resistentes a azitromicina, no entanto, é uma realidade documentada. Em um estudo envolvendo entre 550 amostras isoladas de sete capitais do país (Brasília, Salvador, Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Manaus e Florianópolis) em 2015 e 2016, considerando como ponto de corte CMI ≥ 1 µg/mL, 6,9% das amostras foram classificadas como resistentes a azitromicina, estando este fenótipo distribuído em todas as regiões do país. Em outro estudo, com 116 amostras isoladas no Rio de Janeiro entre 2006 e 2015, 17% das amostras apresentaram CMI ≥ 2 µg/mL, estando estas amostras distribuídas em diferentes grupos clonais e anos do estudo.

No entanto, uma mudança de cenário foi observada no Rio de Janeiro nos últimos anos. Neste trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Investigação em Microbiologia Médica da UFRJ incluindo 93 amostras de N. gonorrhoeae isoladas entre os anos de 2014 e 2017 por laboratórios de análises clínicas, foi observado ano a ano uma aumento na CMI média de azitromicina das amostras testadas, o que se refletiu em um consistente aumento de amostras resistentes ao longo destes anos. Ao todo, 22 amostras (25% da coleção) apresentaram CMI ≥ 2 µg/mL, muitas chegando a CMI ≥ 32 µg/mL. Estas amostras também eram, na sua maioria, não sensíveis a penicilina, tetraciclina e ciprofloxacina. E, importante, análises filogenéticas demonstraram que, após 2016, muitas amostras resistentes a azitromicina pertenciam ao mesmo complexo clonal, um fenômeno não observado antes de 2015. Estes dados sugerem uma mudança no perfil dos gonococus da região metropolitana do Rio de Janeiro, tanto na sua suscetibilidade a antimicrobianos quanto em relação aos clones circulantes, e alerta para a necessidade de ser mantida vigilância epidemiológica acerca deste microrganismo e do tratamento prescrito para as infecções por ele causadas. Como será que estarão as coisas em outras cidades do Brasil?

Você pode ter todos os detalhes no artigo.

Referências de dados citados na fundamentação
Bazzo et al., 2018.  https://doi.org/10.1093/jac/dky090
Costa-Lourenço et al., 2018. https://doi.org/10.1016/j.meegid.2017.12.003


Autores da matéria
Raphael Cavalcante de Medeiros, Adriane Mercadante e Raquel Regina Bonelli