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O polêmico “transplante de fezes”: seus usos e a relação com resistência aos antibióticos

O transplante de fezes surgiu como uma alternativa aos antibióticos e outros medicamentos para tratar intoxicação alimentar, diarréias graves e outras doenças. No entanto, a transmissão de bactérias resistentes pode significar um grave risco para os pacientes e merece atenção.

A infecção por Clostridioides difficile é uma complicação comum após a diminuição dos microrganismos benéficos do intestino, geralmente ocasionada pelo uso de antibióticos, que apresenta altas taxas de recorrência e morbidade. O transplante de microbiota fecal (TMF), popularmente conhecido como transplante de fezes, é uma alternativa eficaz para o tratamento de infecções recorrentes e refratárias causadas por C. difficile e consiste na transferência dos microrganismos de um doador saudável para um paciente infectado. Para o início do tratamento, os doadores são selecionados e aprovados de acordo com os protocolos do comitê institucional local e pelo Food and Drug Administration (FDA), de modo que todo histórico hospitalar do doador e exames laboratoriais cumpram com os padrões necessários. Os voluntários que apresentam quaisquer sintomas como febre ou alterações gastrintestinais são excluídos da pesquisa. Após serem aprovados, as fezes dos doadores são submetidas a diversos processamentos até serem encapsuladas e posteriormente utilizadas no tratamento.

Em 2019, um grupo de médicos e pesquisadores do Massachusetts General Hospital relatou o caso de dois pacientes imunocomprometidos que, após receberem TMF, apresentaram infecções oportunistas por um tipo de bactéria resistente a múltiplos antibióticos, conhecida como Escherichia coli produtora de ESBL (Extended-spectrum beta-lactamase). O primeiro era um paciente do gênero masculino, de 69 anos, e que fez uso das cápsulas orais para tratamento de uma doença hepática terminal. Cerca de duas semanas após o transplante de fezes, o paciente desenvolveu pneumonia e o antibiótico levofloxacina foi utilizado no tratamento. Após a realização da hemocultura, a presença da bactéria E. coli produtora de ESBL foi identificada e o esquema terapêutico foi alterado para meropenem e ertapenem, mantendo a condição clínica estável do paciente que, após conclusão da terapia, testou negativo para o microrganismo isolado anteriormente. O segundo paciente, também do gênero masculino, 73 anos, fez o tratamento com as cápsulas orais antes de ser submetido ao transplante de células de medula óssea para tratar um distúrbio na produção de células sanguíneas. Cerca de uma semana após o fim do tratamento, o paciente apresentou alguns sintomas como febre e alterações neurológicas,  foi submetido à ventilação mecânica e evoluiu ao óbito dois dias depois. Os resultados finais da hemocultura identificaram a bactéria E. coli produtora de ESBL como o agente infeccioso.

Devido às infecções apresentarem perfis de resistência semelhantes se levantou a hipótese de os pacientes terem contraído a bactéria multirresistente após o tratamento por TMF. Após investigação foi confirmado que ambos pacientes receberam cápsulas do mesmo lote do doador. Verificou-se, ainda, que todos os lotes fornecidos por esse indivíduo possuía E. coli produtora de ESBL idênticas àquelas isoladas de sangue dos pacientes.

É importante ressaltar que o material fecal foi doado antes de serem incluídos testes de rotina para microrganismos produtores de ESBL no protocolo de triagem, além disso, os dois pacientes que utilizaram TMF apresentavam fatores de risco para infecções oportunistas por serem imunocomprometidos e receberam antibióticos orais perto ou durante o tratamento, o que pode ter promovido a seleção e manutenção da espécie resistente. Os eventos foram relatados ao FDA que emitiu um alerta nacional informando sobre o ocorrido e sobre os riscos de transmissão de microrganismos resistentes, interrompendo imediatamente todos os ensaios clínicos acerca do tratamento e pesquisa envolvendo TMF. Além disso, exigiu que todas as fezes doadas a partir de então fossem submetidas a testes para detecção de microrganismos multirresistentes  e exclusão daquelas que testassem positivo. O grave episódio foi relatado em uma matéria emitida pelo The New York Times, tendo como título "Como as fezes contaminadas armazenadas em um freezer deixaram um paciente de transplante fecal morto?"  (Link), chamando atenção para os riscos da pesquisa contando com entrevistas da principal autora do artigo e de outros especialistas em TMF.

Apesar das complicações relatadas pelo artigo, grandes benefícios podem ser oferecidos por meio do tratamento com transplante de fezes em distúrbios gastrintestinais como doença de Crohn, síndrome do intestino irritável, constipação crônica e colite ulcerativa, ou em doenças não gastrintestinais como esclerose múltipla, autismo e depressão. Entretanto, mais evidências e pesquisas são necessárias para a maioria dessas doenças. Além dos benefícios observados para essas enfermidades, outros estudos já relataram a possível eficácia do TMF na descolonização de indivíduos portadores de enterobactérias produtoras de ESBL, o que pode significar um importante avanço no combate às bactérias resistentes, visto que a descolonização com o uso de antibióticos não é recomendada. No entanto, é necessário avaliar continuamente os riscos e benefícios do TMF, e a transmissão de bactérias resistentes aos antibióticos como efeito colateral deve ser controlada com rigor.

Você pode obter mais informações no  artigo principal  e  artigo de apoio.

Autoria:  Victória de Oliveira Costa

RevisãoGabriel Taddeucci Rocha e Renata Cristina Picão