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Presença do gene de resistência a antimicrobianos em alimentos de origem animal produzidos no Brasil

Atualmente, ao abordarmos o tema da resistência aos antimicrobianos, é imprescindível ressaltar a importância do conceito de Saúde Única (One Health). O entendimento de como mecanismos de resistência se desenvolvem e se disseminam e como circulam entre seres humanos e animais através da água, alimentos e meio ambiente é fundamental para que seja possível combater de forma efetiva esse crescente problema de saúde pública.  

Os antimicrobianos são uma das classes de medicamentos mais prescritas na medicina humana. No entanto, o uso na medicina veterinária e, principalmente, em animais de produção também é bastante significativo. Entre as diversas classes de antibióticos utilizadas na produção agropecuária, encontram-se algumas consideradas criticamente importantes para a medicina humana, como as polimixinas.

A colistina, principal antibiótico desta classe, vem sendo utilizada há décadas na cadeia de produção de alimentos para o tratamento e prevenção de infecções gastrintestinais de aves e suínos submetidos a sistemas de criação intensiva, e para a promoção de crescimento de animais de produção. Porém, recentemente as polimixinas passaram a ter uma maior importância na medicina humana devido ao crescente número de infecções causadas por bactérias multirresistentes, o que despertou uma significativa preocupação com o desenvolvimento de resistência a essa classe de antibióticos.

Devido ao extenso uso de colistina na produção agropecuária, é importante investigar a presença do gene mcr-1 (gene que pode conferir resistência às polimixinas) em alimentos de origem animal, pois essa pode ser uma importante via de transferência deste mecanismo de resistência entre animais e humanos. Dessa forma, um estudo realizado no Laboratório de Pesquisa em Resistência Bacteriana (LABRESIS), publicado no ano de 2020 na revista Foodborne Pathogens and Disease, buscou avaliar a presença do gene mcr-1 em isolados de Salmonella spp. obtidos de alimentos produzidos no Brasil entre os anos de 2014 e 2017, além de realizar a caracterização dos isolados contendo esse mecanismo de resistência.

Os resultados da pesquisa demonstraram a presença do gene mcr-1 em 8 (1,6%) dos 490 isolados de Salmonella spp. avaliados. As bactérias contendo esse gene de resistência foram obtidas de carnes de frango, peru e suíno, e de carcaças suínas, e a grande maioria pertencia ao sorovar Typhimurium e sua variante monofásica 4,[5],12:i:-. A avaliação do perfil de resistência dos isolados indicou que não há um perfil específico associado ao gene mcr-1, mas a maioria apresentava resistência a diversos outros antibióticos, além da colistina (multirresistência). 

A avaliação das características genéticas das Salmonella positivas para o gene mcr-1 foi realizada através do sequenciamento completo dos genomas bacterianos (NGS). Dessa forma, foi possível identificar que, em todos os isolados, o gene mcr-1 estava localizado em um plasmídeo do tipo IncX4, semelhante a outros que já foram encontrados no Brasil em diferentes espécies de bactérias, como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae. Diversos outros genes de resistência também foram identificados, porém, nenhum localizado no mesmo plasmídeo do gene mcr-1. Ainda, através de experimentos de conjugação bacteriana, foi possível demonstrar que os isolados de Salmonella foram capazes de transferir seus plasmídeos contendo o gene mcr-1 para uma cepa de E. coli, confirmando a alta capacidade de disseminação deste gene.

Dessa forma, os resultados obtidos pelo estudo indicaram que um único tipo de plasmídeo pode estar envolvido na disseminação do gene mcr-1 no Brasil. Além disso, a presença deste gene em um importante patógeno de origem alimentar ressalta a importância do monitoramento da resistência na cadeia de produção de alimentos (One Health) e a necessidade do uso responsável dos antimicrobianos na produção agropecuária.

Para saber mais sobre o estudo acesse o link do artigo aqui.

 

Autoria:  Ms. Renata Batista Rau

Revisão: Dra. Priscila Lamb Wink e Prof. Dr. Afonso Luís Barth