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Saúde Única: uma abordagem fundamental

Nas últimas três décadas, a maioria das doenças infecciosas emergentes foi inicialmente relatada ou associada com animais, especialmente os de vida selvagem, sendo que os principais fatores relacionados ao seu surgimento estão associados às atividades humanas, incluindo mudanças nos ecossistemas, intensificação da agricultura, urbanização, viagens e comércio internacional. Assim, torna-se necessário reconhecer a importância da colaboração interdisciplinar para responder às doenças emergentes e reemergentes e, em particular, para a inclusão da saúde da vida selvagem como um componente essencial da prevenção, vigilância, controle e mitigação de doenças infecciosas em uma esfera global.

Até o momento, não há uma definição internacionalmente aceita de Saúde Única. Entretanto, o conceito mais usado, compartilhado pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e pela One Health Commission, define Saúde Única como abordagem colaborativa, multissetorial e transdisciplinar, abrangendo as esferas local, regional, nacional e global, com o objetivo de alcançar resultados ideais de saúde, reconhecendo a interconexão entre pessoas, animais, plantas e seu ambiente compartilhado. Uma versão mais simples, preconizada pelo One Health Institute da University of California, define Saúde Única como uma abordagem para garantir o bem-estar das pessoas, animais e ambiente por meio da resolução colaborativa de problemas, nas esferas local, nacional e global.

O termo Saúde Única (One Health) foi empregado pela primeira vez entre 2003-2004 no contexto da síndrome respiratória aguda grave (SARS) no início de 2003 e, posteriormente, pela disseminação da gripe aviária H5N1, e pela série de objetivos estratégicos conhecidos como “Princípios Manhattan” estabelecidos em uma reunião da Wildlife Conservation Society (WCS), em 2004, que reconheceu a ligação entre a saúde humana e animal e as ameaças que as doenças representam para a alimentação e a economia da população humana. O surto de SARS, primeira doença grave, facilmente transmissível do século XXI, levou à percepção de que: (i) um patógeno desconhecido pode emergir da vida selvagem, a qualquer momento e em qualquer lugar e, ameaçar a saúde, o bem-estar e a economia de todas as sociedades humanas; (ii) deve-se desenvolver a capacidade de detectar e reagir aos surtos de interesse internacional, assim como compartilhar informações sobre tais doenças de forma rápida e transparente, e (iii) o enfrentamento de grandes surtos ou pandemias em vários países requer cooperação e participação global usando os princípios básicos consagrados em Saúde Única.  

O conceito de Saúde Única enfoca claramente as consequências, respostas e ações nas interfaces humano-animal-ecossistema e abrange, especialmente, zoonoses emergentes e endêmicas, estas últimas sendo responsáveis por um número muito maior de doenças nos países em desenvolvimento, com grande impacto social em regiões com poucos recursos; resistência antimicrobiana, uma vez que esta pode ser inicialmente detectada em populações humanas, animais ou ambiente e, posteriormente, ser disseminada de uma população para outra, em diferentes regiões geográficas; e segurança alimentar. No entanto, o escopo da Saúde Única, conforme previsto por organizações internacionais (incluindo World Healthn Organization, WHO; Food and Agriculture Organization of the United Nations, FAO; World Organisation for Animal Health, OIE; United Nations Children's Fund, UNICEF), o Banco Mundial e organizações nacionais, também abarca outras disciplinas e domínios, incluindo saúde do ambiente, ciências sociais, ecologia, vida selvagem, uso da terra e biodiversidade, estando a colaboração interdisciplinar no cerne do conceito Saúde Única.

A atual pandemia de COVID-19 é um momento oportuno para enfatizar a importância da abordagem de Saúde Única. Entretanto, as tentativas de implementação desta abordagem não terão sucesso sem o envolvimento ativo das comunidades, no sentido de adequar suas práticas e costumes. Embora a Saúde Única tenha se estabelecido nos últimos 15 anos nas ciências da vida, medicina veterinária e ciências biomédicas, ainda permanece pouco conhecida do público. No sentido de torná-la mais popular, assim como para motivar ações públicas, diversas entidades têm contribuído com a divulgação do tema através de sites, vídeos, podcasts, e outros meios de comunicação populares. Foi instituído, ainda, o Dia Mundial da Saúde Única (One Health Day), geralmente comemorado no dia 03 de novembro, cuja celebração, este ano, deverá ser particularmente marcante devido à pandemia de COVID-19 e será precedida da primeira versão virtual do World One Health Congress, de 30 de outubro a 03 de novembro de 2020. 

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Autoria: Andréa de Andrade Rangel de Freitas & Lúcia Martins Teixeira