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Nova droga para tratamento contra Neisseria gonorrhoeae multirresistente apresenta resultados promissores

O avanço das taxas de resistência a antimicrobianos em Neisseria gonorrhoeae no mundo, notadamente àqueles incluídos nas terapias recomendadas pela OMS (ceftriaxona e azitromicina) têm estimulado o desenvolvimento de novos antimicrobianos capazes de atuar contra este microrganismo. Nos Estados Unidos, por exemplo, em virtude da crescente resistência a azitromicina, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) emitiu um novo protocolo de tratamento em 2020, removendo a azitromicina da terapia combinada e indicando o uso de doxiciclina somente em casos suspeitos de infecção por Chlamydia trachomatis.

Este preocupante cenário em relação à resistência aos antimicrobianos que as amostras de gonococos apresentam tem estimulado, nos últimos anos, pesquisas por novos compostos capazes de atuar contra estes microrganismos. Recentemente, uma nova molécula vem sendo estudada como possível antimicrobiano contra gonococos: a zoliflodacina. A zoliflodacina é o primeiro antimicrobiano da classe das espiropirimidinatrionas. Seu mecanismo de ação é semelhante ao das fluoroquinolonas, inibindo a ação da enzima DNA girase, mas a zoliflodacina liga-se em um ponto do complexo DNA-enzima alternativo aos das quinolonas; estudos indicam que em GyrB.

Pesquisas in vitro com diversas coleções de gonococos (incluindo a da AstraZeneca, Projeto de Vigilância para Gonococos dos Estados Unidos, amostras clínicas da Europa, da China e da OMS) demonstraram a eficácia de zoliflodacina frente a amostras apresentando resistência a penicilina, cefixima, ceftriaxona, azitromicina, tetraciclina e fluoroquinolonas, com concentração mínima inibitória (CMI) de zoliflodacina a 0.25 μg/ mL.

Nos estudos de fase 1 foram realizados diferentes testes visando a tolerabilidade, farmacocinética, absorção, distribuição, metabolismo e excreção da zoliflodacina. Os resultados apresentaram uma rápida absorção, meia vida de cerca de 6 horas. Não foram observados efeitos adversos graves ou mortes, sendo os mais comuns, alterações no paladar e dores de cabeça.

Os estudos de fase 2 analisaram a segurança e eficácia em pacientes com gonorreia urogenital. Os resultados confirmaram a efetividade da zoliflodacina. Por fim, as avaliações com foco em genotoxicidade demonstraram que a zoliflodacina não apresentou efeitos tóxicos para medula óssea nem efeitos mutagênicos que possam impactar o paciente, diferentemente de algumas quinolonas como a gemifloxacina.

Para o estudo de fase 3, está prevista uma abordagem similar à fase 2 incluindo aproximadamente mil pacientes adultos de diferentes países. Será realizado um estudo randomizado comparando zoliflodacina com a terapia hoje utilizada (ceftriazona combinada com azitromicina). Pretende-se também investigar a eficácia da droga para tratar infecções gonocócicas em sítios extragenitais. Ao que tudo indica, a zoliflodacina pode vir a ser uma alternativa de tratamento para as infecções causadas por Neisseria gonorrhoeae num futuro próximo.

Mais dados e informações sobre a Zoliflodacina no artigo:

https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acsinfecdis.0c00021

Patricia A. Bradford, Alita A. Miller, John O’Donnell, e John P. Mueller.  Zoliflodacin: An Oral Spiropyrimidinetrione Antibiotic for the Treatment of Neisseria gonorrheae, Including Multi-Drug-Resistant Isolates. ACS Infectious Diseases 2020. DOI: 10.1021/acsinfecdis.0c00021

 

Autores: Raphael Cavalcante de Medeiros e Raquel Regina Bonelli