Abstract
A resistência em Neisseria gonorrhoeae consiste em um grande desafio para entidades de saúde pública mundialmente. Atualmente, guias de tratamento de gonorreia em vários países estabelecem como estratégia para terapia empírica da doença a combinação de azitromicina eceftriaxona. Estes são considerados os últimos antimicrobianos com ação validada contragonococos para os quais ainda há ampla suscetibilidade, e seu uso combinado visa desacelerara resistência a estes antimicrobianos. No entanto, a ocorrência de resistência a ambas as drogas foi relatada em diversos estudos, tornando crítica a implementação de estratégias de prevenção e rastreamento da disseminação da resistência a antimicrobianos neste microrganismo.
O Brasil não tem um programa de vigilância implementado, sendo os poucos dados disponíveis a este respeito provenientes de estudos independentes realizados em poucas regiões brasileiras. Mesmo assim, constata-se que a resistência em gonococos no Brasil apresenta as mesmas tendências internacionais. O presente trabalho é um estudo retrospectivo com relação à suscetibilidade a antimicrobianos e filogenia de uma coleção de 116 amostras de N. gonorrhoeae obtidas no Rio de Janeiro entre 2006 e 2015.A concentração mínima inibitória (CMI), determinada por ágar diluição para penicilina, tetraciclina, ciprofloxacina, cefixime e ceftriaxona, e por E-test para azitromicina, demonstrou que as taxas de resistência para penicilina, tetraciclina e ciprofloxacina foram altas (acima de 40%) durante todo o período estudado. Todas as amostras foram sensíveis a ceftriaxona e a redução de suscetibilidade a cefixime (CMI 0,25 µg/ml) foi detectada primeiramente em uma amostra em 2010 e em mais seis amostras nos anos seguintes (7/116; 6%). Resistência a azitromicina foi detectada a partir de 2009 também em sete amostras (6%) com CMI ≥ 2 µg/ml. O sequenciamento do genoma completo foi realizado para todas as 116 amostras. SubstituiçõesPBP1 L421P, PorB G120K e PorB A121D e plasmídeos β-lactamases do tipo Toronto/Rio, África e Ásia foram detectados nas amostras resistentes a penicilina. Substituições V57M,PorB G120K e A121D e plasmídeos TetM tipo American e Dutch foram identificados nas amostras resistentes à tetraciclina. Mutações cumulativas na QRDR de gyrA e parC mediaram resistência à ciprofloxacina. Seis das sete amostras resistentes à azitromicina tinham asubstituição C2611T. Entre as sete amostras com suscetibilidade reduzida à cefixime, seis apresentavam o gene penA com mosaico XXXIV e uma a variante penA XII.
O estudo da diversidade genética das amostras por MLST e pela análise da máxima verossimilhança do core genoma agrupou-as de forma congruente e mostrou que as altas taxas de resistência à penicilina, tetraciclina e ciprofloxacina, assim como a ocorrência de redução de suscetibilidade à cefixime, estavam associadas à persistência de clones bem-sucedidos. A resistência à azitromicina, em contraste, emergiu não relacionada a clones específicos. Por serum estudo com detalhada caracterização molecular, estes resultados permitiram comparar gonococos circulantes no Rio de Janeiro com os isolados em outras regiões do mundo. Esses resultados demonstram que ceftriaxona e azitromicina são as melhores opções de tratamento para infecções gonocócicas no Rio de Janeiro e reforçam a necessidade da implementação deum programa nacional de vigilância de resistência em N. gonorrhoeae.
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